12 de novembro de 2013

EUA podem banir gorduras trans por riscos à saúde...

 
A FDA (agência que regula alimentos e remédios nos EUA) sugeriu ontem uma nova regra que pode eliminar as gorduras trans adicionadas a alimentos naquele país.
 
A proposta, que ficará em consulta pública por 60 dias, afirma que os óleos parcialmente hidrogenados que dão origem às trans não sejam mais reconhecidos como seguros. As empresas teriam que provar a segurança da substância --o que seria difícil, já que isso contraria as conclusões de estudos publicados nas últimas décadas.
 
Margaret Hamburg, da FDA, diz que a medida pode evitar 20 mil infartos e 7.000 mortes por ano nos EUA, onde o consumo de gorduras trans já tem caído. Cadeias de fast food já pararam de usá-las em frituras, por exemplo.
 
No Brasil, as trans não são proibidas, mas a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) recomenda que a ingestão máxima seja de 2 gramas por dia.
 
A agência também controla o uso de alegações "zero trans" nas embalagens de produtos. Hoje, alimentos que declaram ser livres de gordura trans podem ter no máximo 0,2 g por porção.
 
Mas, a partir de 2014, o produto deve ter no máximo 0,1 g de gordura trans por porção para ser considerado "livre".
 
Desde 2008, acordos fechados entre o Ministério da Saúde e a Abia (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação) levaram a uma redução dos teores de gorduras trans na comida pronta.
 
De acordo com a meta, as trans poderiam responder por 5% do total de gorduras em alimentos industrializados ou a 2% em óleos e margarinas. Segundo a Abia, 95% das empresas associadas cumpriram essa diretriz.
 
"Se essa proibição dos EUA valesse no Brasil, o impacto seria pequeno. Mas qualquer medida extrema não é muito boa", afirma Edmundo Klotz, presidente da Abia.
 
RISCOS
 
As gorduras trans começaram a ser usadas nos anos 50, em substituição à gordura de origem animal e para aumentar a durabilidade dos produtos. O problema é que não bastava trocar a banha pelos óleos vegetais, que são líquidos à temperatura ambiente e não dão a mesma crocância e aparência aos alimentos como a gordura animal.
 
Foram criados processos de hidrogenação dos óleos que os tornam sólidos em temperatura ambiente. Como explica a nutricionista Ana Maria Lottenberg, do laboratório de lípides da Faculdade de Medicina da USP, a hidrogenação parcial dos óleos vegetais dá origem às trans.
 
De acordo com cardiologista Raul Santos Filho, professor da Faculdade de Medicina da USP, as gorduras trans têm um efeito nocivo sobre os níveis de colesterol: aumentam o LDL (que contribui com a aterosclerose) e reduzem os níveis do HDL, que "limpa" o colesterol dos vasos e o leva para o fígado.
 
O cardiologista Daniel Magnoni, diretor de nutrição do Instituto Dante Pazzanese, diz que a gordura trans impede a degradação do LDL no fígado. "O impacto maior é nos jovens, que consomem muita comida pronta. Podemos ver aumento das doenças cardíacas no futuro."
 
Outro problema, segundo Santos, é o que está no lugar da gordura trans: óleo de palma e gordura interesterificada --originada de outro processo industrial que modifica a estrutura de óleos vegetais para torná-los sólidos.
 
Lottenberg diz que, até agora, é difícil saber qual será o impacto na saúde do uso desse tipo de gordura, produzida a partir de óleo de palma, na maioria dos casos. "Estamos fazendo um trabalho grande sobre isso na Faculdade de Medicina"
 
Ela lembra que, apesar dos acordos feitos pela indústria, ainda é comum achar produtos com trans no mercado, em especial biscoitos. "E não é porque algo é livre de trans que é saudável. O alimento pode ser muito calórico e ter muita gordura saturada."
 
Fonte: Folha de São Paulo